A SECA DE 1970

Antonio Machado


O sol caiu no poente vermelho como uma bola de fogo, o calor que evolava da terra seca, pronunciava uma noite quente. O céu não tinha um pedaço de nuvem, foi assim o dia todo. Era uma noite de plenilúnio. A lua surgiu avermelhada por trás dos ouricuriseiros, que, no clarão da lua, suas palhas brilhavam dentro de um verdês escuro muito bonito. Aos poucos, o clarão foi espalhando sua luz sobre a terra seca, calcinada pelo sol escaldante daqueles dias de tanto calor, estava-se no ano de 1970, a água estava escassa tanto nos açudes, quanto nas cacimbas de minação. O ano anterior tinha sido seco, não deixando quase nada na lavoura, o povo estava cheio de aperreio, porque, além da falta de alimentos, a seca queimava em aumentar mais a situação de penúria no sertanejo, a seca de 1970 passou para a história como uma das maiores mais registradas.

O que fazer diante de tantos problemas escabrosos? Lá no céu, a lua fazia sua jornada ao poente, aspergindo seu luar prateado, indiferente a tudo e a todos, essa era sua missão como astro que só mostra sua grandeza, quando a noite está mais escura, porque o luar é sempre seu, e, quando vai embora, engolida pelo poente, leva consigo toda beleza. A situação estava cada vez mais difícil para o sertanejo, que já previa mais um ano de seca, quando já estava findando o mês de maio, quando se sabe que o inverno bom começa sempre em abril, nas primeiras trovoadas, e sequer no dia de São José choveu, 19 de março, onde o sertanejo deposita toda a sua fé no glorioso São José, para que, no São João, se tenha milho maduro para assar na fogueira, no dia 24 de junho, dedicado a São João, mas essas esperanças tinham se diluído no tempo, com a seca que estava instalada de cama e mesa na casa do sertanejo, sem prazo para ir embora.

Na beira da cacimba do gameleiro estava apinhada de gente, com potes e latas, aguardando a vez para encher, mas tudo obedecia à ordem da minação e da chegada. O clarão da lua fazia a festa, quando chegou o poeta Colly Flores e, vendo aquela alegria do povo sorrindo, fez de improviso esta décima, arrancando os aplausos dos presentes:

"O tempo está abafado
E o calor matando sem pena,
Numa seca da gota serena,
Fazendo o cabra molhado,
Com o corpo todo ligado,
Sem água para se banhar,
A cacimba vai secar,
E o açude já secou,
A catingueira não enfolhou,
Tá difícil até pra cagar."

O povo caiu na gargalhada, pois Colly Flores era conhecido como poeta sem métrica, haja vista ser analfabeto, apenas tinha o dom da poesia, era também conhecido em toda a região, vivendo naqueles arrabaldes, trabalhando na roça, era pessoa de estima de seus vizinhos e amigos. Vez por outra cantava um pagode na casa de Lucila Santos, no sítio Pedrão Velho, ou na casa de Simião da Pedra da Viola, e, quando isso lhe ocorria, sobravam-lhe uns trocados que davam para fazer uma feira.

Vi e vivi esta tragédia, que tantos fatos guardei na memória, e hoje relato para os meus leitores como vida que vivi dentro da minha adolescência. Lero Lero era o presidente da Associação Comunitária Panela de Barro naquela região, que, diante do problema da seca, conclamou as pessoas de maior idade e os rapazes de bigode para uma reunião de emergência na associação, para tratar do assunto em tela.

Comentários