Vicente e Nanete: do Litoral ao Sertão, uma história recíproca de amor

Crônicas

Por Sérgio Campos

Um pouco da história de um casal que construiu, ininterruptamente, sessenta anos de bons exemplos para uma comunidade

Recém convocado para compor as fileiras da Polícia Militar de Alagoas, o soldado Vicente Alves da Silva, recebeu determinação do seu comando para fortalecer as tropas que prestavam serviços no Sertão do estado.

O ano era 1951 quando desembarcou em terras sertanejas o jovem Vicente Alves da Silva, oriundo da capital alagoana. O Estado era governado por Arnon Afonso de Farias Melo, enquanto Santana do Ipanema, a Rainha do Sertão, a qual se destacava como região promissora na economia agrícola, recebendo posteriormente o título de “Terra do Feijão”, se encontrava sob o comando político do prefeito Adeildo Nepomuceno Marques.

Com o coração cheio de esperança e obediente à sua corporação, o militar logo se enturmou com populares e, mesmo tímido, a cada momento construía novas amizades por todo o município, assim como fez ao longo de sua vida.

Na década de 1950 a juventude santanense se reunia nas imediações do Cine Glória, no bairro do Monumento. A casa de entretenimento vivia o auge da diversão cinematográfica, com exibições de grandes clássicos do cinema nacional e internacional, sempre aos sábados e domingos.

Naquele clima de trabalho e distração, o jovem militar enxergou pela primeira vez o olhar da sua amada. Ali o destino lhe reservou o que de melhor poderia ter acontecido em sua vida. Não demorou para que o moço se aproximasse daquela donzela que já arrematara o seu coração, fazendo com que nunca mais pensasse em voltar para a capital.

Vicente Alves, que jamais tinha visitado o sertão, era natural da cidade de Viçosa, tendo ido morar ainda criança em Maceió. Filho de seu Antônio Plácido Silva e dona Valdomira Alves da Silva, começa a namorar a jovem Maria Nanete Oliveira, natural do Povoado Pedra d’Água dos Alexandres. No momento em que os seus olhares se cruzaram pela vez primeira a jovem, que lecionava na zona rural de Santana do Ipanema, visitava a residência de sua tia Nina, na Avenida Coronel Lucena, como era de costume, sempre que tinha oportunidade.

Até que os dois estivessem enamorados e concretizassem as núpcias, tudo correu de acordo o protocolo tradicional da época e da localidade. Vicente cortejava a jovem Nanete, mas para que o seu sonho se tornasse algo concreto seria necessária a autorização dos pais da moça, Miguel Fernandes Oliveira e Francisca Fernandes Oliveira, residentes no Povoado Pedra d’Água dos Alexandres.



A data que marcou uma nova história na vida do casal foi outubro de 1953. Numa manhã ensolarada de terça-feira, a matriz de Senhora Santana testemunhou a cerimônia matrimonial do casal Vicente Alves e Nanete Oliveira: o único e eterno amor do “praça” oriundo da capital, que antes daquele momento distinto já agradecia ao comando da Polícia Militar o fato de tê-lo convocado para uma missão especial na região sertaneja.

Para o casal de sertanejos, que criou seus dez filhos a fim de que um dia pudesse vê-los formar suas famílias nos padrões educacionais da religião católica, a qual praticava, a simpatia foi recíproca com aquele que se tornaria um membro da família. Seu Miguel e Dona Francisca, carinhosamente chamada de “Dona Francisquinha”, não tiveram dificuldades para aceitar o galanteio do militar, que a essa altura já era bastante popular e muito querido na cidade.

Sob as bênçãos do padre Jeferson, pároco auxiliar do cônego Luis Cirilo da Silva, o casal Vicente Alves e Nanete Oliveira passa a viver os seus novos desafios. Inicialmente o casal morou na Rua Barão do Rio Branco, até realizar o sonho da casa própria, onde mora até hoje Dona Nanete, na Avenida Martins Vieira.

Sempre firme nas suas atividades laborais, com exemplo e retidão, Vicente Alves galgou o posto de 3º Sargento da Polícia Militar. Na década de 1970, com intuito de encaminhar os seus filhos para a vida profissional Seu Vicente dá suporte para o funcionamento de uma banca de revistas, o que lhe daria posteriormente o epíteto de “Seu Vicente da Banca de Revistas”.

O “Sargento Vicente”, como era conhecido por seus colegas de farda, entre outros hobbies, gostava de futebol, e, torcedor apaixonado do Botafogo incentivou filhos e netos a fim de segui-lo.

Com todos os percalços, mas também aproveitando as bênçãos que a vida lhes reservou, o casal conseguiu educar e entregar para a o mundo seus oito filhos. Carlos Alberto, Miguel Antonio, Carlos Jorge, Ana Lúcia, Paulo Fernando, Adenilson, Roberto Cezar e Maria Élcia, sempre foram gratos pelos exemplos dados por este casal.

No dia 25 de julho deste ano, véspera do dia em que a cidade que o adotou homenageia a padroeira Senhora Santana, Dona Nanete, filhos, netos, genros, noras e amigos receberam, com pesar e tristeza, a notícia do falecimento de Seu Vicente, superado pelo seu legado. Naquele momento ele acabara de cumprir sua missão aqui na terra. Este viveu 84 anos, sendo 63 deles dedicados a Santana do Ipanema e sua família.

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