Ensaio X - Budapeste
A partida para Budapeste foi repleta de expectativa, e não poderia ser diferente, pois Budapeste, a rainha do Danúbio é também chamada de a Paris do Leste Europeu, tal a harmonia e a beleza da sua arquitetura. Budapeste enquanto capital da Hungria foi fundada em 17 de novembro de 1873, a partir da fusão das povoações milenares: Buda e Ôbuda, na margem direita do rio Danúbio, e Peste, situada à sua margem esquerda.
Saímos de Viena numa manhã de quarta feira de céu extremamente azul e sol forte, apreciando as paisagens rurais e as pequenas cidades e vilarejos medievais. As breves paradas nesses centros urbanos nos permitia observar as pessoas e as construções, oportunizando rápidas filmagens e fotos que não nos deixam mentir. As pessoas da região, os húngaros mais do que os austríacos demonstravam curiosidade em nos conhecer, falar do seu país e saber do Brasil.
Em alguns trechos da nossa viagem, passamos por campos de refugiados, que embora de longe, lembram os acampamentos dos “sem terra” às margens das nossas rodovias. Sendo que no primeiro caso, são bem mais organizados e higiênicos, cuja aparência está mais para acampamentos turísticos do que para as “habitações” promíscuas cobertas de lona preta, papelão ou palha, característica das invasões tupiniquins.
Durante a viagem, uma senhora húngara muito extrovertida e orgulhosa do seu país, esforçou-se para nos contar aspectos da história e da conjuntura húngara, maiormente no campo. Na verdade, ao “pé da letra”, não entendíamos bulhufas, porém, a vontade de nos comunicar fez-nos, principalmente através de gestos e simbologia, mantermos uma prosa animada até Budapeste, cidade de 1.700.000 habitantes. De quando em vez, gastávamos um pouco do pouco inglês, do pouco francês e até palavras em russo, a final, tudo vale quando o importante é se comunicar dizia o velho guerreiro: Quem não se comunica se trumbica! Foi assim que ficamos sabendo um pouquinho mais da cultura e da história da Hungria.
Ao chegarmos a Budapeste, depois de passarmos por majestosos distritos industriais, dos setores, automobilístico, metal-mecânica e química industrial, cujos produtos são comuns no mercado brasileiro, seguimos à procura de hotel. Como sempre a dor de cabeça era encontrar vagas em hotéis, afinal, depois do desfazimento da URSS, o Leste Europeu vive praticamente em alta estação.Optamos desde o início da viagem em não reservar hotéis previamente, até porque não sabíamos e a Euroline não informava previamente os dias e horários de partidas e chegadas, menos ainda o tempo de permanência em cada cidade. Ao sairmos de Grenoble, na França, já sabíamos das dificuldades que iríamos encontrar no tocante a hospedagem, porém resolvemos arriscar e deu certo, sempre dá, entretanto não se pode desesperar, procurando com jeitinho tudo se resolve, mesmo que se perca algum tempo.
A Hungria é um país extraordinário. A nossa expectativa era de um país soturno, com um povo igualmente soturno, no enganamos, achamos um povo alegre, as mulheres elegantes, verdadeiras Marias Antonietas, brancas/rosadas, olhos claros e magras, parecendo todas, “top models” em desfile!
Ao chegarmos a estação central inter-modal, um cidadão nos procurou oferecendo pousada. Ficamos um tanto desconfiados, pois na própria estação eram visíveis os avisos de não confiem em estranhos que oferecem ajuda, podem ser “ladrões, traficantes de drogas ou agenciadores da prostituição”. Nesse caso, no entanto, foi um agente de turismo, embora não parecesse. Ele nos levou à agência nas proximidades do Danúbio e lá conseguimos alugar por três dias um apartamento amplo, de dois quartos, sala, cozinha equipada e tudo o mais além do que precisávamos, bem no centro comercial de Budapeste, num prédio antigo e em reforma, ao preço equivalente a 20 dólares por pessoa/dia.
Após instalarmo-nos, almoçamos e fomos a Peste... quer dizer, fomos passear pela cidade, observando os prédios, os monumentos e as lojas, cujos visuais ainda carecem de uma certa dose de ocidentalização para quebrar a sisudez das suas vitrines. Durante a nossa viagem, fomos surpreendidos inúmeras vezes com vendedores e recepcionistas falando em português, ou nos abordando quando ouviam nossas conversas e perguntavam: são do Brasil? Ah, também sou, ou sou de Angola, Portugal ou da China e nos dispensavam tratamento especial.
Pelo que ouvimos, o Brasil para eles, é o país do futebol, das mulheres bonitas, de belas praias, também “o país do futuro, não se conhece “feitos” extraordinários, mas também não incomoda, não sei se isso é bom!...Talvez já tenha chegado a hora de nos fazermos conhecidos pela nossa inteligência, pelos nossos feitos científicos e tecnológicos, pela nossa produção e... por outras coisas que não nos reduzam aos gols de Pelé e aos “derrières” de nossas mulheres.
Budapeste possui 9 pontes, inúmeros castelos, 223 museus, 237 monumentos, 35 teatros, 90 cinemas, 12 salas de concertos e o 2º metrô mais antigo da Europa, o primeiro é o de Londres. O Parlamento húngaro é um dos pontos obrigatórios para se conhecer.
A história da Hungria data de 89 a.C. quando os romanos fundaram a cidade de Aquincun, que viria a ser a capital da província romana da Panônia de 106 d.C. ao século IV, recebendo tempos depois a denominação de Ôbuda (velha Buda), hoje subúrbio de Budapeste. No ano 900 d.C. os magiares fundaram o reino da Hungria, se instalando ao sul de Ôbuda, em frente a Peste e em 1.241 ergueram um castelo real na localidade que viria a se chamar de Buda, às margens do Danúbio, magnífica construção. Outras invasões e revoluções aconteceram e a Hungria já fez parte do Império Otomano, foi invadida pelos Celtas, foi conquistada pelos Habsburgos, já compôs o Império Austro Húngaro, foi invadida pelos nazistas e ocupada pelo Exército Vermelho ao final da II guerra mundial. A partir do início dos anos 90, a República Parlamentarista da Hungria teve abertas suas fronteiras com outros países fora da antiga Cortina de Ferro. A Hungria ocupa uma área de 93.033 km2, com uma população da ordem de 10.100.000 habitantes com uma renda per capita de U$ 20.700, ostentando o 39º lugar entre todos os países, cerca de 5 vezes a renda per capita brasileira.
Budapeste é uma bela cidade, como todas as capitais da ex-cortina de ferro, está recuperando seus monumentos históricos, criando bairros moderníssimos e expandindo toda a sua infra-estrutura urbana e rural. Os altos padrões de educação e de saúde das ex Repúblicas Socialistas Soviéticas são as bases de apoio para essa nova etapa de desenvolvimento, os quais muito ajudaram no ingresso da Hungria e dos demais países na Comunidade Econômica Européia. Os passeios pela cidade, a parada nos cafés e as visitas aos museus e monumentos não podem faltar nos roteiros dos turistas que buscam conhecimento.
No dia seguinte fomos passear de barco pelo rio Danúbio, ao som de uma boa música de Strauss, de Bethoven e de outros clássicos, apreciando as belezas dessa cidade aristocrática que ficou dezenas de anos “protegida” pela cortina de ferro e que atualmente experimenta os ares da liberdade e se abre para o mundo sem medo de ser feliz.
MAAS
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