Santana do Ipanema - domingo, 25 de fevereiro de 2018
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Crônicas
12/02/2018
CINZAS DE UM CARNAVAL (Oscar Silva)
Compilação: João Neto Félix Mendes


Crônica extraída do livro “Fruta de Palma” (Crônicas Nordestinas) de Oscar Silva, primeira edição publicada em 1953, prefácio de Tadeu Rocha. A segunda edição foi publicada em 1990. Cascavel, PR. Páginas 29 e seguintes.

Apresentação na orelha no livro: “Oscar Silva (1915-1991), Santanense, com alicerce no submundo social da terra natal, é um desses nordestinos teimosos que muito se orgulham das pedras do caminho de sua origem proletária.”

“Vindo ao mundo na primeira grande seca do século (1915), operário de tecelagem, balconista de botequim, integrante da PM que combateu Lampião, servidor público civil estadual, funcionário do correio e do Ministério da Fazenda.”

“Enveredando pela política, assumiu posição de esquerda, que lhe rendeu além de algumas cadeias, prejuízos na vida profissional. E daí? Daí que um autêntico pau-de-arara não recua frente aos chifres de boi brado.”

“Na literatura, por sua vez, autodidata e petulante, muita gente não lhe iria perdoar a ousadia do ingresso como escritor e muito menos as editoras lhe abririam as portas. E daí? Daí quem escreve quer ser lido. E o nordestino teimoso só encontrou um caminho: publicar às suas expensas o que fosse escrevendo.”

A divulgação dessa crônica de Oscar Silva se dá pela importância histórica-documental dos relatos minuciosos das manifestações carnavalescas de Santana do Ipanema na primeira metade do século XX, também vivenciadas pelo escritor.

O autor registra, inclusive, a citação de versos cantados em algumas delas. Foi integrante do bloco carnavalesco “Negras da Costa”, discorrendo sobre a forma de se apresentar do grupo; “... Finalmente passava o tradicional “Negras da Costa”, do qual tive a honra de fazer parte - rapazes vestidos de negras, saias, ancas de molambos, a girar pela cidade, dançando, rodopiando e torcendo os quadris (...) andavam, não pelo meio da rua, mas em (...) casas onde entravam para dançar”.

Quando ele afirma sobre o bloco “Negras da Costa” (...) o tradicional (...) leva-nos a crer que o bloco existia há muito tempo e se apresentava ano após ano no carnaval santanense. Atualmente o folguedo é reconhecido como essencialmente Alagoano, fundamentado pelo estudo do Mestre Folclorista Théo Brandão, publicado na obra “Folguedos Natalinos de Alagoas” em 1973.

Segundo o trabalho “Alagoas - Seus Folguedos & *Suas Danças”, publicação da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas, Secult, 2017, o folguedo “Negras da Costa” permanece vivo no Município de Quebrangulo AL, berço natal do Mestre Graciliano Ramos.

Discorre ainda o autor de que conhecera seu Hermídio Firmo. Senhor que viveu toda existência em Santana e sem sair de casa para parte alguma. No carnaval fazia umas cabacinhas cheirosas. Autodidata, aprendera escultura, desenho, pintura e até bordado, confirmando assim a opinião de Hendrik Willem Van Loon (1882-1944). “O artista é quase sempre um indivíduo solitário”. Citação de Oscar.

O também santanense, escritor Breno Accioly, escreveu uma crônica sobre Seu Hermídio, porém com outra grafia do nome: “O Natal de Seu Hemídio”. Esse conto fora publicado na revista nacional “O Cruzeiro” em 18.12.1943.

Voltando ao tema principal, nessa crônica de Oscar, além dos fatos acima, algo também chama à atenção: Relato nostálgico do autor em 1953 de que os carnavais dos anos 20,30 e etc., não eram mais os mesmos. Será que estamos condenados a sempre achar que o passado será sempre melhor que o presente, mesmo levando em conta as circunstâncias particulares que cada tempo enseja em si mesmo? Sabemos que cada época sofre influência das questões econômicas, políticas e sociais!

Que dizemos de hoje e dos carnavais de Santana da nossa juventude? Com frequência, ouvimos a expressão: “No meu tempo era assim...” Na maioria das vezes em tom de lamentação; se não fora vivido ou de forma saudosa; se vivido foi. Será que as coisas realmente mudaram ou foi somente nosso olhar que mudou? Ou nossa inocência coletiva juvenil fora tomada de assalto pelas preocupações da sisudez adulta tornando insustentável a leveza existencial?
Joao Neto Felix Mendes

Vejamos a crônica, então:

Cinzas de um Carnaval ( Oscar Silva ) 1953

- UM, dois, três, quatro... Vinte e cinco.

Da mesma forma que contávamos os dias antes do Natal ou do São João, somávamos nos dedos os que faltavam para o carnaval.

Estávamos ainda distantes uma quinzena e já saíamos em turmas a procura de barro-de-louça. Subíamos barrancos, descíamos ribanceiras, Ipanema acima, Ipanema abaixo.

Um dia ou dois após, já estavam os nossos quintais repletos daquelas bandas de cabeças cinzentas, cara para o sol, a secar, a secar até poder serem removidas e usadas como formas de máscaras. Depois, eram as visitas à casa de Hermídio, o rapaz que não punha a cabeça fora da porta mas sabia fazer como ninguém umas cabacinhas cheirosas. Ficávamos a olhar o Hermídio derreter a cera, meter-lhe dentro aquelas formas de madeira parecidas com bilros, a cera talhando, enxugando e secando a ponto de soltar de cada forma facilmente uma banda da cabacinha. E só saíamos dali quando víamos uma série de bolinhas brancas, azuis ou encarnadas, bem fechadas e cheias de água-flórida.

Depois dessa espécie de “Introdução”, vinha a primeira parte do carnaval: O Zé Pereira. Dois. Cada banda de música fazia questão fechada de apresentar o seu. Por uma rua saía o da “Aratanha”, banda de música de mestre Juvino(finado tio meu); por outro, ia passando “Carapeba”, a banda de Seu Queirós. Como em outro festejos populares, os partidários se agrupavam em torno de sua banda predileta. E era um clarinar de pistons, um matraquear de tambores, um estrugir de bombos e o vozerio a cantar pela Rua do Sebo, da Poeira, Camuxinga ou Monumento:

Viva Zé Pereira!
Viva o Carnaval!
Moça bonita
Na janela está!


Deixávamos a rua, quando o sono nos arrastava para a cama. Caíamos a dormir sonhando com a cara do Zé Pereira, aquela porção de lanterninhas acesas e conduzidas pelos homens que cantavam. Aos acordar, éramos espectadores do subir de um pano para a segunda parte da comédia. E vinha o entrudo. Aquele domingo, especialmente na parte da manhã, era dedicado ao mela-mela de farinha-do-reino ou pó-de-arroz, aos banhos com as cabacinhas do Hermídio, seringas de folha de Flandres e até com água de cuia tirada de cacimba.

Havia um corre-corre em cada rua, em cada esquina, em cada casa de família, em casa cacimba do Ipanema. E as risadas ecoavam aqui e acolá, enquanto passavam homens de cara suja, cabelo fubazento e a roupa molhada. Rapazes e moças, com as vestes manchadas do azul ou do encarnado das cabacinhas. E todos a rir do entrudo que deram ou tinham recebido inesperadamente.

À tarde do domingo, arrefecia um pouco o entrudo, para dar lugar ao aparecimento dos primeiros caretas (bobos). Um rêlho estalava na entrada de qualquer rua, e toda aquela artéria se movimentava para ver a turma dos caretas. Os mascarados passavam coxeando, a disfarçar o caminhar e, ao estalo do rêlho, pareciam arrulhar: “Hur! Hur! Hur!” E a garotada a correr com um medo danado daqueles bobos.

Ao findar do domingo, costumavam surgir algumas fantasias e um ou outro clube de moças ou crianças.

Mas, a segunda e terça-feira eram mesmo os dias que compunham a última parte daquele carnaval: dias em que se viam, ao lados dos caretas, clubes de mais de trinta dias de ensaio e encontros festejados, a confetes e serpentinas.

Era carnaval com um tic de inocência coletiva. Carnaval que ignorava Rei Momo e só aos poucos ia conhecendo o lança-perfume. Clubes como o “Morcegos”, somente de homens (dúzia-e-meia de homens, mais ou menos) vestidos de preto, a dançarem enfileirados e de “asas” abertas, precedidos do baliza e puxados pela orquestra que não ia além de uma harmônica de oito baixos. Ou como o “Cana Verde”, a cantar rua afora, numa quase indolência de procissão:

Perguntam as moças na janela, umas às outras:
“Que clube é esse que brilho agora?”
Respondem elas, umas às outras, emprazeradas:
“É o Cana Verde que ressurgiu nesta hora!”


Passavam os demais clubes, alguns somente de moças ou crianças, como o “Borboletas” e o “Esperança”, as figurantes trazendo à cabeça uma borboleta artificial ou o chapéu de palha de Ouricuri, a aba quebrada de um lado e laço verde cheio de pedrinhas douradas – clubes que, em vez de dançar, passeavam pelo meio da rua, arrastando os pés para a frente e para trás. Finalmente passava o tradicional “Negras da Costa”, do qual tive a honra de fazer parte – rapazes vestidos de negras, seios e ancas de molambos, a girar pela cidade, dançando, rodopiando, torcendo os quadris e cantando:

Ô raio! Ô Sol!
Suspende a Lua!
Nega da Costa,
Já anda na rua.

Nega da Costa
Que anda fazendo?
- Ando na rua,
Comendo e bebendo


E era mesmo comendo e bebendo que o “Negras da Costa” e os demais clubes andavam, não pelo meio da rua, mas em cada casa onde entravam para dançar. O interesse dos figurantes de um clube qualquer, interesse sentido a começar dos ensaios, era dançar na casa de D. Sinhá Rodrigues, do Chefe Político Benedito Melo, dos altos comerciantes e até do próprio Padre Bulhões e aí tomar alguns cálices de vinho e comer pedaços de pão-de-ló.

Era assim o Carnaval que brinquei na juventude, em Santana do Ipanema, minha terra natal. Era esse o carnaval do sertão. Hoje, até ali “a coisa é diferente”. De um tal passado basta apenas a recordação...



 
 
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