Santana do Ipanema - quarta, 13 de dezembro de 2017
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17/07/2017
Procissão dos Carreiros inicia Festejos à Padroeira dos Santanenses
João Neto Félix Mendes (*)


Prociss√£o de Carreiros 2017
(*) Artigo publicado no jornal CAMPUS O DIA - Periódico da UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - coluna do Prof. Sávio Almeida - Edição de 15 a 22 de julho de 2017

Todos os anos a prociss√£o de carros de bois dos agricultores sertanejos de Santana do Ipanema, faz a abertura oficial dos festejos da padroeira Senhora Santana. A religiosidade √© representada pelos instrumentos de trabalho, fam√≠lia e f√©. ‚ÄúProciss√£o‚ÄĚ prov√©m do latim ‚Äúprocedere‚ÄĚ, que significa seguir em frente, marchar. √Č grupo organizado de pessoas caminhando de maneira formal. Marcha solene pelas ruas da cidade, carregando imagens, entoando c√Ęnticos e ora√ß√Ķes. Esse ritual, segundo a cren√ßa, torna as pessoas e os lugares aben√ßoados. Como rebanho que segue seu pastor e nele confia seu destino, assim o povo de Deus caminha lado a lado, dividindo as dificuldades do existir, mas certos de que a Gra√ßa Divina basta e mais nada. Esse gesto simb√≥lico secular presente no inconsciente coletivo revela que somente a conviv√™ncia solid√°ria e participativa entre os irm√£os, seguindo o itiner√°rio de f√©, conduz ao encontro de si mesmo, dos irm√£os e de Deus, por intercess√£o de Senhora Santana, Excelsa Padroeira dos Santanenses.

Segundo estudos consagrados por diversos pesquisadores santanenses, o povoamento da cidade est√° essencialmente relacionado √† atividade mission√°ria cat√≥lica desde o final do s√©culo XVIII. O povoado nasceu em torno de uma Capela √† Senhora Santana que o Padre Francisco Correia construiu na fazenda do sertanista Martinho Rodrigues Gaia. A Festa religiosa acontece no m√™s de julho, no per√≠odo de 16 a 26.07, sendo feriado municipal no dia 26.07, dia da padroeira e dia do av√ī. Afinal, S√£o Joaquim e Santa Ana s√£o os pais de Maria, portanto, av√≥s de Jesus. O nome primitivo da cidade foi Santa Ana da Ribeira de Ipanema, depois se adotando a forma simplificada Sant‚ÄôAna do Ipanema.

O uso ancestral de carro de bois pelos sertanejos √© uma tradi√ß√£o da √©poca do Brasil Col√īnia. O rudimentar ve√≠culo ainda hoje √© utilizado para transporte da produ√ß√£o, para o deslocamento na zona rural e tamb√©m para ir √† feira na cidade vender ou comprar alguma coisa. Na √©poca de plantio de milho e feij√£o, os bois s√£o utilizados para puxar o arado de tra√ß√£o animal e arar a terra. Segundo o historiador Santanense Prof¬ļ Clerisvaldo Chagas, autor de diversos trabalhos sobre o tema, ‚Äúo arcaico meio de transporte, a despeito do modernismo dos tempos atuais, continua em voga, prestando relevantes servi√ßos ao homem do campo. Em Santana do Ipanema, o ve√≠culo foi e continua amplamente utilizado, destacando o Munic√≠pio como ‚ÄúTerra dos Carros de Bois‚ÄĚ em tempos passados.

Constam registros fotogr√°ficos os carros de bois estacionados nas feiras nas proximidades na Usina de Beneficiamento de Algod√£o, √† Rua Ministro Jos√© Am√©rico, portanto no centro da cidade, em meio aos transeuntes. Certamente deve ter transportado produtos do campo para venda na feira, numa rua de intenso burburinho e muita intera√ß√£o entre pessoas, contudo tamb√©m pr√≥ximo de passagem para sa√≠da, se preciso. Em outra foto, v√°rios carros enfileirados atravessam o leito seco do Rio Ipanema em dire√ß√£o ao centro da cidade transportando suas cargas para venda, numa √©poca em que ainda n√£o havia pontes sobre o Rio Ipanema. ‚ÄúEsses ve√≠culos foram muito importantes no passado, sempre √ļteis na op√ß√£o de carregar mercadorias pesadas de todos os tipos e transporte de pessoas para os mais diversos eventos: novenas, feiras, festas ou viagens curtas ou longas. Do interior levavam para os portos fluviais ou mar√≠timos diversos produtos: Cereais, queijos, carnes, couros e peles, fazendo o caminho de volta para os sert√Ķes trazendo ferramentas, tecidos e produtos industrializados‚ÄĚ.

Diz ainda o Professor, ‚Äúque desde o tempo de Vila que Santana do Ipanema possu√≠a cal√ßamento de granito bruto no com√©rcio e em algumas ruas. Ao substituir o cal√ßamento pelo esquadrejado paralelep√≠pedo, o Prefeito Ulisses Silva (1961/1965), proibiu a circula√ß√£o de carros de bois pelas ruas do com√©rcio. Foi assim que o novo carreiro criou o carro de boi com rodas de pneu, pois o aro de ferro prejudicaria o novo tipo de cal√ßamento. Mesmo com o impedimento de circula√ß√£o no centro da cidade, o uso do ve√≠culo pelos produtores rurais continuou intensamente, por se tratar de ve√≠culo de carga compat√≠vel com o poder econ√īmico dos ruralistas‚ÄĚ. Em muitos momentos, comprova-se a concentra√ß√£o de carros de bois estacionados nas areias do Rio Ipanema nos dias de feira, antigamente. H√° registros fotogr√°ficos dessa movimenta√ß√£o social e constam de livros hist√≥ricos, como por exemplo; ‚ÄúSantana do Ipanema Conta sua Hist√≥ria‚ÄĚ, pg.80, de Floro e Darci de Ara√ļjo Melo.

Ainda existem fabriquetas de carros como antigamente e muitos artes√£os continuam demonstrando habilidade e per√≠cia na fabrica√ß√£o dos ve√≠culos, motivados pelos diversos movimentos que estimulam a continuidade da produ√ß√£o, tais como: Prociss√£o de carros, concursos, encontros e outras manifesta√ß√Ķes de apre√ßo que procuram manter viva a tradi√ß√£o no m√©dio e alto sert√£o de Alagoas. Fabricar esses carros √© coisa de mestre com muitos anos de dedica√ß√£o ao of√≠cio. Inclusive, exemplos de como essa cultura permanece viva no imagin√°rio das pessoas √© a reprodu√ß√£o da figura do carro de boi nas artes. Artes√£os santanenses produzem miniaturas; sejam de madeira, barro ou de ferro e vendem como souvenir. Artista pl√°stico, escritores e cordelistas tamb√©m produzem trabalhos ilustrando e decantando a vida interiorana e o uso cotidiano do carro de boi.

‚ÄúO carro √© composto por¬†duas rodas, mesa¬†de madeira e um eixo. As rodas s√£o feitas de madeira de boa qualidade, com um anel de ferro de forma circular nas extremidades, para garantir maior resist√™ncia. Primitivamente, o carro n√£o era ferrado e as pessoas diziam que ‚Äúo carro andava na madeira‚ÄĚ. A grade possui cerca de tr√™s metros de comprimento por um e meio de largura, com duas pe√ßas mais resistentes de cada lado e uma terceira no meio, mais comprida, destinada a atrelar o carro √†¬†canga, uma pe√ßa, tamb√©m de madeira, com mais ou menos um metro de comprimento, contendo um corte anat√īmico para assentar bem no pesco√ßo do boi, sendo segura por uma correia de couro chamada de¬†brocha.¬†A grade √© apoiada sobre um eixo. O ponto de apoio da grade sobre o eixo s√£o duas pe√ßas de madeira chamadas¬†coc√Ķes.¬†O chiado ou cantiga caracter√≠stica do carro de boi √© produzido pelo atrito do coc√£o sobre o eixo‚ÄĚ.

Segundo, ainda, o historiador Prof¬ļ Clerisvaldo, ‚Äúeis as partes da anatomia de um carro de boi: (*registrado o nome popular da √°rvore que fornecer√° madeira para a fabrica√ß√£o da parte descrita). Existem diferen√ßas na apresenta√ß√£o do carro de boi da Zona da Mata e do Sert√£o, dentro do mesmo estado e outras diferen√ßas entre carros de bois de estados diferentes. A ess√™ncia, entretanto, √© a mesma.

Peças do Carro de Boi em ordem alfabética:

1-Cabeçalho (*de Aroeira), parte de madeira quadrada e longa do carro que fica entre os bois traseiros para ser puxados por eles;

2-Cantadeiras (*de Craibeira), duas partes de eixo, mais escavadas, que ficam abaixo das chedas. Uma em cada extremidade do eixo. O atrito das cantadeiras com os coc√Ķes produz o chiado singular, o cantar do carro de boi;

3-Chedas (*de Bara√ļna), s√£o partes laterais da mesa do carro, no leito, onde se tem encaixes dos fueiros;

4-Coc√Ķes (*de Bom nome), cada um das pe√ßas de madeira na qual faz girar o eixo do carro de boi. √Č uma esp√©cie de presilha. Ficam por baixo das chedas, duas de cada lado do eixo;

5-Costelas, encaixes das partes da roda, três pranchas que formam a roda;

6-Cunha, para as cabeças do eixo;

7-Eixo (* de Bara√ļna de charco, ou Angico ou Aroeira bem madura), pe√ßa que faz a roda girar;

8-Ferro (ferrar o carro); da mesa: vergalh√£o para amarrar as t√°buas da mesa;

9-Forras ou rilheira, suportes que atravessam transversalmente o cabeçalho, sobre os quais se apoiam as tábuas da mesa;

10-Fueiros (*de Pereiro), várias peças, cacetes, roliços e brutos que predem a carga ao carro;

11-Mesa (*de Craibeira), superfície onde se coloca a carga;

12-Palmatória, são as duas partes da frente da mesa, uma a cada lado do cabeçalho. O carreiro costuma guiar os bois, sentado na palmatória, às vezes;

13-Repuxo, espécie de reforço raiado para reforçar a roda;

14-Requevém, são dois. Saliência na traseira da mesa;

15-Rodas (*de Craibeira ou Jacarand√°), colocadas internamente nas pranchas por furos retangulares, estas fixadas por grampos e chapas de ferro. A circunfer√™ncia √© coberta com chapa de a√ßo fixada √† madeira com grampos de a√ßo cuja forma arredondada deixa um rastro caracter√≠stico. Outras medidas de carro de boi: 12 palmos de comprimento, 06 palmos de largura e 06 palmos de roda‚ÄĚ.

Acessórios do Carro de Boi: 1. Azeite (de mamona), para azeitar o eixo, as cantadeiras. 2. Isope (hissope), chumaço num cambito para azeitar o eixo. 3.Ponta, que pendurada ao fueiro traseiro por uma correia serve de depósito para conduzir o azeite e o hissope.

Arreios dos bois

1. Broxa, correia de couro cru, curtido e torcido que une um canzil a outro, passando por baixo do pescoço do boi.

2. Cambão, peça de madeira que liga as parelhas de trás as da frente.

3. Canga (*de Craibeira e Bra√ļna), pe√ßa que se prende ao cabe√ßalho ou ao camb√£o e colocada sobre o pesco√ßo do boi.

4. Canzil (*de Bom nome e Pereiro), cada um dos 04 paus da canga, colocados de cima para baixo, entre os quais o boi mete o pescoço, entre dois deles. Plural: canzis.

5. Chave (*de Bom nome), peça que prende a canga ao cabeçalho + correia de couro cru.

6. Correia de ponta, peça para unir as pontas furadas de cada parelha.

7. Corrente, parte que complementa o cambão, às vezes é de corda.

8. L√°tego, parte do arreio que sustenta o sininho, muito usado nas parelhas da frente.

9. Sininhos, pendurados nos látegos e que servem de advertência de aproximação do carro de boi ou simples enfeites.

10. Tamboeiro (ou Tamboeira), correia de couro cru, curtido e torcido que prende a chave do cabeçalho ou cambão à canga.

11. Trela, peça de sola que, na cara do boi, leva os enfeites.

Acessórios do Carreiro

1. Corri√£o (de couro cru e cabo de madeira) ‚Äď Serve para a√ßoitar os bois e √© conduzido no ombro, esp√©cie de chicote.

2. Fac√£o (de arrasto ou rabo de galo) ‚Äď Objeto cortante robusto para trabalhar em diferentes tarefas e ocasi√Ķes durante as viagens.

3. Vara de ferr√£o (de Quixabeira, assada ao fogo, na caieira) ‚Äď Serve para conduzir, guiar e castigar os bois.

Tolda

1. Tolda (de esteira de piripiri), armação para amparar do sol e da chuva, principalmente, ao transportar pessoas.

2. Amarração (de palha de Ouricuri), amarra-se a tolda aos fueiros.

3. Arcos da tolda (varas flexíveis de cipós ou marmeleiro), serve para arquear a tolda, por baixo, amarradas aos fueiros com a palha do coqueiro Ouricuri.

A prociss√£o anual dos carreiros na Festa de Senhora Santana √© um evento coordenado pela Associa√ß√£o dos Carreiros. Segundo o agropecuarista Luiz Alves Ribeiro, um dos idealizadores do evento, afirmou que a ideia surgiu durante as festividades do I Encontro de Carros de Bois, realizado l√° nos anos 2000, no Parque de Exposi√ß√Ķes Isa√≠as Rego, em Santana. Referido encontro teve por objetivo promover a troca de experi√™ncias, interc√Ęmbio e congra√ßamento entre os carreiros. No evento tamb√©m acontecem competi√ß√Ķes de demonstra√ß√£o de for√ßa de tra√ß√£o entre os animais e premia√ß√£o para o carro mais enfeitado, por exemplo. Na Missa de encerramento do encontro o Padre Delorizano M. da Rocha, sugeriu que fosse a Prociss√£o de Carros de Bois, evento de abertura da Festa da Padroeira Senhora Santana. Aprovada a sugest√£o, no ano seguinte, o cortejo chegou a 700 participantes. Na edi√ß√£o de 2015, chegou-se ao incr√≠vel n√ļmero de 1400 participantes.

A concentra√ß√£o ocorre no parque de exposi√ß√Ķes Isa√≠as Vieira Rego, zona rural, √†s margens da rodovia AL 130. Percorrendo um trecho aproximado de 2km. A romaria √© liderada pelo carro de boi que transporta o p√°roco e a charola ornamentada com a r√©plica da imagem de Senhora Santana que esteve percorrendo a zona rural em novenas nas resid√™ncias da regi√£o, como parte dos preparativos para a festa da padroeira. √Č muito comum, antes de cada per√≠odo festivo, na liturgia cat√≥lica, a realiza√ß√£o de novenas nas casas das fam√≠lias que se oferecem para o rito di√°rio com leituras, rezas e cantos. Os exemplos mais cl√°ssicos s√£o a via sacra, no per√≠odo da quaresma e as novenas natalinas, no per√≠odo do advento.

Diz o psicanalista, escritor e educador Rubem Alves ‚Äúo carro de boi √© guiado pelo carreiro que caminha ao lado dos bois ou sentado no pr√≥prio carro. Na m√£o ele tem uma vara comprida com um prego na ponta: √© o ferr√£o. Com o ferr√£o ele espeta o boi que est√° fazendo corpo mole, ou o boi que est√° indo na dire√ß√£o errada. E os bois obedecem. √Č imposs√≠vel n√£o obedecer √†s ordens da dor. Por√©m, o orgulho do carreiro est√° na m√ļsica que o carro faz. Carro de boi √© instrumento musical. A madeira do eixo, girando apertada na madeira de encaixe, produz um som cont√≠nuo e melanc√≥lico, pranto de carpideira, lamento sem fim‚ÄĚ.

Como um maestro, a vara do carreiro se transforma em batuta e as m√ļsicas dos carros ecoam e elevam aos c√©us a sinfonia pranteada dos seus carros, que tem cheiro e gosto da lida di√°ria e do suor sagrado do trabalho simbolizando celebra√ß√£o e agradecimento. No olhar disperso de tantos homens an√īnimos, rostos enrugados pelas marcas do tempo revelam o esfor√ßo repetitivo e incans√°vel de desvendar os segredos da terra e dos mist√©rios contidos no singular exerc√≠cio de cultivar e cuidar dos seus animais. Nas linhas quase escondidas das m√£os calejadas desses bravos guerreiros est√£o escritas hist√≥rias de gente simples que nunca se cansa de esperar por tempos mais favor√°veis.

A beleza visual antag√īnica da marcha religiosa dos rudimentares carros disciplinarmente enfileirados na negritude asf√°ltica da rodovia AL 130, esbanjam rusticidade, mistura de passado e presente, ritual repleto de significados. Cada carreiro leva, no seu ve√≠culo, sua fam√≠lia, parentes e amigos nesse simb√≥lico gesto de preserva√ß√£o de costumes de outrora. Quando chegam as imedia√ß√Ķes da cidade, nas proximidades do Serrote Micro-ondas, descortina-se paisagem extasiante da cidade abra√ßada pelos montes que a circundam. √Č como se a natureza, providencialmente, estivesse abra√ßando e protegendo o povo do lugar. Ao chegarem √† cidade, dirigem-se ao Largo C√īnego Jos√© Bulh√Ķes onde a multid√£o aguarda a chegada e estacionamento dos carros para in√≠cio da Santa Missa √† Padroeira Senhora Santana. Sobre a carroceira de um caminh√£o se instala um altar provis√≥rio aonde o p√°roco conduz o ato religioso.

Ao final da Missa sauda√ß√Ķes calorosas e euf√≥ricas s√£o feitas aos carreiros e √† Padroeira. Depois de aben√ßoados, encerra-se o encontro e se inicia a dispers√£o com o cortejo de volta ao local inicial. Aos poucos, todos retornam aos seus lugares, √† labuta di√°ria da buc√≥lica vida rural. Ali, longe dos olhares citadinos, fam√≠lias n√£o param, continuam com afinco seus afazeres. A simbiose dos homens rurais com os carros de bois √© digna de admira√ß√£o e continuar√° fortalecida nas rela√ß√Ķes socioecon√īmicas, al√©m de permanecer no imagin√°rio afetivo das cidades interioranas, fato que n√£o se pode prescindir de jeito nenhum, pois a despeito do progresso em que vivemos, a sociedade ainda carrega a marca indel√©vel das coisas simples da exist√™ncia, do modo de viver e dos s√≠mbolos que fortalecem o elo que parece que se perdeu no caminho da evolu√ß√£o. Somente parece.

A Festa da Padroeira √© momento especial de reflex√£o e ora√ß√£o na comunidade paroquial onde acontece e cada vez mais, procura inserir em seus rituais elementos do cotidiano do povo, destacando sua import√Ęncia na espiritualidade. Durante nove noites v√°rios temas s√£o apresentados para medita√ß√£o e cada dia h√° um padre convidado para presidir a novena. A primeira parte da missa reza-se cantando a Ladainha de Nossa Senhora com muito fervor, exclusivamente no per√≠odo da novena. Depois, prossegue-se a missa como de costume. Poucos lugares ainda mant√©m esse ritual lit√ļrgico. Encerrando o culto, os santanenses cantam emocionados e em un√≠ssono o hino em louvor √† Padroeira, invocando b√™n√ß√£os e gra√ßas mil sobre os sert√Ķes. No ano de 2016 comemorou-se 180 anos da cria√ß√£o can√īnica da Par√≥quia. No dia da padroeira, pela manh√£, reza-se a missa solene, concelebrada pelo Bispo Diocesano, Padre anfitri√£o e outros P√°rocos convidados. √Ä tarde, milhares de fi√©is participam da prociss√£o percorrendo v√°rias ruas da cidade. Ao final do cortejo, encerram-se as comemora√ß√Ķes na Pra√ßa da Matriz.

A discuss√£o do tema Prociss√£o de Carros de Bois na Prociss√£o de Senhora Santana tem suscitado pesquisas tanto no meio popular e art√≠stico, quanto no meio acad√™mico. Tanto √© que discentes do curso de Economia da UFAL da unidade de Santana do Ipanema tiverem trabalhos aprovados na 18¬™ Confer√™ncia Brasileira da Folkcomunica√ß√£o realizada em maio/2017 em Recife, reunindo pesquisadores de v√°rios Pa√≠ses. Este ano, o tema foi Folkcomunica√ß√£o, cidadania e inclus√£o social no contexto das rurbanidades. As pesquisas sobre o potencial pol√≠tico emancipat√≥rio das manifesta√ß√Ķes populares foram apresentadas por discentes e abordadas em palestras de professores convidados. Os trabalhos apresentados pelos graduandos da UFAL abordaram temas ligados √†s manifesta√ß√Ķes folk na prociss√£o de carros de boi, na festa de Senhora Sant¬īAna, em Santana do Ipanema, dentre outros, conforme noticiado pela Universidade.



João Neto Félix Mendes
 
 
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