Santana do Ipanema - quinta, 23 de novembro de 2017
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CrŰnicas
29/04/2017
A VOLTA PRA CASA ‚Äď NESTOR PEIXOTO NOYA
Por João Neto Félix Mendes


Restos mortais do santanense Nestor Peixoto Noya

Contexto Histórico: Breve Relato da Ditadura Militar no Brasil

Em novembro de 1965, a ditadura cassou os partidos políticos e implantou o sistema bipartidário: enquanto a Arena (maioria no Congresso) apoiava o governo, o MDB (atual PMDB) fazia oposição a ele.

Na maior parte do tempo, o Congresso permaneceu aberto, mas o novo regime tirou sua autonomia. Quando algum parlamentar denunciava o governo, ele era cassado. Em 1966, no entanto, a ditadura fechou o Congresso. O presidente Castelo Branco só o reabriu depois que alguns parlamentares oposicionistas foram presos ou cassados. A reabertura do Parlamento chegou com uma nova Constituição, aprovada em janeiro de 1967 sem uma Assembleia Constituinte.

Desde o início da ditadura, houve muitos protestos contra ela. Graças a forte atuação, os estudantes e trabalhadores foram os principais alvos do regime. Em outubro de 1964, a UNE e todas as entidades estudantis foram extintas. No ano seguinte, os universitários da UnB (Universidade de Brasília) foram considerados subversivos pela ditadura, que fechou o local após a invasão da polícia.


Em mar√ßo de 1968, uma manifesta√ß√£o contra a m√° qualidade do ensino foi reprimida com a morte de Edson Lu√≠s de Lima Souto, de 18 anos, no restaurante estudantil Calabou√ßo, no Rio de Janeiro. A rea√ß√£o levou estudantes e setores da Igreja Cat√≥lica e da sociedade civil a realizar uma das principais manifesta√ß√Ķes contra a ditadura, a passeata dos cem mil.

Foi também naquele ano que aconteceu a primeira greve de trabalhadores, em Osasco. Mas foram os operários do ABC Paulista, na Grande São Paulo, que deram mais trabalho. Para tentar conter os protestos, os militares intervieram em sindicatos e afastaram seus líderes. A partir de então, os nomes dos dirigentes sindicais precisavam ser aprovados pelo Ministério do Trabalho.

Um dos protestos mais agressivos aconteceu no dia 4 de setembro de 1969, quando um grupo conhecido como MR-8 sequestrou o embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, libertado três dias depois em troca de 15 presos políticos. Os envolvidos no caso foram exilados no México.

Apesar dos protestos, a ditadura gozou de popularidade, especialmente porque a economia do pa√≠s cresceu muito entre 1963 e 1973, d√©cada conhecida como "milagre econ√īmico": foi o auge da ditadura. A partir de 1974, √ļltimo ano de mandato do presidente M√©dici, esse crescimento come√ßou a diminuir porque a infla√ß√£o aumentava junto com a d√≠vida externa. Em 1979, o fim do "milagre" j√° era sentido pela popula√ß√£o, que aumentou os protestos. Foi principalmente nesse per√≠odo que as greves dos metal√ļrgicos do ABC - comandados pelo ent√£o sindicalista Luiz In√°cio Lula da Silva - aprofundaram a crise da ditadura.

A solu√ß√£o encontrada pelo ent√£o presidente Ernesto Geisel foi abrandar a repress√£o. A ditadura deu in√≠cio a uma transi√ß√£o gradual para a democracia. O presidente Jo√£o Figueiredo acabou com o bipartidarismo, aprovou elei√ß√Ķes diretas para governador em 1982 e anistiou militares e opositores.

Breve Biografia de Nestor Peixoto Noya

Nestor, nasceu no dia 07.01.1940, em Santana do Ipanema, segundo filho do casal Darras Noya e Marinita Peixoto Noya. Darras, chefe dos correios da cidade e Marinita, professora e diretora do Grupo Escolar Padre Francisco Correia. Seu Darras, al√©m servidor dos correios, era bo√™mio, de bem com vida e integrado aos movimentos sociais da comunidade. Apaixonado por m√ļsica, participou, em 1937 da Filarm√īnica Santa Cec√≠lia sob a reg√™ncia do Maestro Jos√© Ricardo Sobrinho e nos anos 50, grupo musical ‚ÄúSeresteiros do Sert√£o‚ÄĚ, fot√≥grafo, filatelista, numism√°tico e colecionador de garrafas de aguardente lacradas. N√£o foi por acaso que o Museu da Cidade recebeu seu nome.

Nesse ambiente multi cultural cresceu o menino Nestor rodeado de amigos, desfrutando da buc√≥lica vida interiorana, das brincadeiras e peraltices. Estudou as s√©ries iniciais em Santana. Cursou o gin√°sio e o cient√≠fico no Col√©gio XV de Novembro em Garanhuns PE, juntamente com os insepar√°veis amigos Em√≠lio Silva e Geraldo Bulh√Ķes. Estiveram juntos nos principais eventos e movimentos sociais da √©poca, em Santana, tais como: As gincanas automobil√≠sticas da festa da juventude e a R√°dio Candeeiro.

Cursando o científico, ainda em Garanhuns, teve uma grande paixão por uma estudante daquele educandário e, por essa razão, foi obrigado a sair da Instituição, indo morar em Maceió.

Anarquista e politicamente ativo Nestor mudou-se para o Rio de Janeiro e lutou contra o regime militar no Brasil. Estudou engenharia civil no Rio de Janeiro. O ideal libert√°rio, a defesa dos diretos civis e a voca√ß√£o para as artes visuais nortear√£o decisivamente sua exist√™ncia. Nesse per√≠odo, convive com Milton Nascimento e desenvolve alguns trabalhos para o artista como fot√≥grafo e ‚Äúcameraman‚ÄĚ. Em 1967, por ocasi√£o do Festival Internacional da Can√ß√£o, no Rio, Milton defende ‚ÄúTravessia‚ÄĚ, que conquista a segunda coloca√ß√£o levando-o ao reconhecimento p√ļblico.
Mudou-se para Bras√≠lia para realizar seu sonho de estudar cinema na UnB ‚Äď Universidade de Bras√≠lia. Em 1965, a UnB foi invadida e fechada pelo regime militar e todos os universit√°rios foram considerados subversivos e muitos foram expulsos do Pa√≠s. Nestor foi um deles.

Ele fugiu para o Chile como exilado pol√≠tico, por√©m o povo chileno tamb√©m vivia sob regime militar. O agravamento da crise pol√≠tica no Chile obriga-o a fugir mais uma vez. Dessa vez, vai para o Paraguai e tem prote√ß√£o da Embaixada Brasileira, contudo Nestor almejava al√ßar voos nas plagas distantes do Velho Mundo para se dedicar a sua paix√£o de estudar cinema. Durante sua milit√Ęncia pol√≠tica no Chile e Paraguai, participou de diversas reuni√Ķes em que esteve presente o revolucion√°rio e lend√°rio Ernesto Che Guevara.

Com o intuito de ir √† Pol√īnia para estudar cinema naquele Pa√≠s, Nestor chegou ao Sul da Su√©cia, na cidade denominada ‚ÄúYstad‚ÄĚ tendo morando algum tempo por l√°. Entretanto, com rapidez, conseguira emprego como fot√≥grafo em Estocolmo, mudando-se em 1973. Com a gradua√ß√£o incompleta de cinema no curr√≠culo, fora admitido, como fot√≥grafo pelo Governo Sueco, inclusive, tendo contatos profissionais com a Rainha S√≠lvia, que √© brasileira. Desenvolveu seu trabalho no Instituto Defici√™ncia, que mais tarde mudou seu nome para Ag√™ncia de Ajuda.
Ao longo de mais de 30 anos prestou serviços como fotógrafo ao Governo Sueco. Em 2007 teve aposentadoria compulsória. Relatos das pessoas que conviveram com ele atestaram-no como pessoa generosa, amável e de sorriso largo. Por seu jeito contagiante de rir, sua presença era logo percebida onde estivesse, ratificando, portanto, as virtudes da família Noya.

Enquanto morou em Estocolmo esteve algumas vezes em Santana. Zé Neto, seu irmão, queria muito que ele viesse embora, porém afirmava que queria continuar morando e trabalhando por lá mesmo. Assim se fez.

Faleceu dormindo no dia 06.11.2016, aos 76 anos, v√≠tima de parada card√≠aca. Sua crema√ß√£o foi em 22.11.2016, em Estocolmo. Admirado e querido por seus vizinhos e amigos, muita gente compareceu √† cerim√īnia de despedida organizada por sua filha Joana, para render-lhe derradeiro reconhecimento.

Deixou 03 filhos; João Pedro, do relacionamento com Liana Vieira, residentes em Niterói, RJ; Joana Peixoto Noya, do relacionamento com Yara Pontes Neto e Simon Moacyr Robin Wallin, do relacionamento com Katharina Wallin, todos residentes na Capital Sueca.

A¬†Su√©cia¬†√© uma¬†monarquia constitucional¬†parlamentarista, em que o¬†chefe de Estado¬†√© um¬†monarca, com poderes e fun√ß√Ķes meramente oficiais e cerimoniais. O atual rei √©¬†Carlos XVI Gustav. A princesa herdeira¬†Vit√≥ria, primog√©nita do rei, √© a primeira na linha de sucess√£o. A governa√ß√£o do pa√≠s √© efetuada pelo¬†governo, liderado pelo¬†primeiro-ministro, e respondendo politicamente perante o¬†parlamento. O atual primeiro-ministro √©¬†Stefan L√∂fven¬†(Partido Social-Democrata), desde¬†2014.

O Pal√°cio de Drottningholm, classificado pela Unesco como patrim√īnio mundial da humanidade, foi constru√≠do no s√©culo XVII, na ilha Lovon, em Estocolmo. √Č a resid√™ncia oficial do rei Carl XVI Gustaf e da rainha S√≠lvia. Nascida na Alemanha e criada no Brasil, S√≠lvia √© uma rainha discreta e admirada por suas obras de caridade e seriedade. A monarca √© filha da brasileira Alice Soares de Toledo, fala portugu√™s fluentemente e esteve v√°rias vezes no Brasil. Ela costumava passar f√©rias no interior paulista, onde ainda moram v√°rios de seus primos.

Os sonhos n√£o envelhecem! A travessia feita na ida √© a mesma travessia feita na volta. Era o seu desejo que seus restos mortais retornassem √† terra natal. Assim se cumpriu. Em 29.04.2017, numa manh√£ chuvosa, rodeado de amigos e familiares foi sepultado no cemit√©rio Santa Sofia, em Santana do Ipanema, no t√ļmulo da fam√≠lia; Darras Noya, Mirinita Peixoto Noya, Jos√© Peixoto Noya, Nestor Peixoto Noya, al√©m de irm√£s que faleceram rec√©m-nascidas. Que descansem em paz! As novas gera√ß√Ķes t√™m o compromisso de levar adiante o legado das gera√ß√Ķes passadas, honrando suas virtudes.

Em nome do povo Santanense, nesse ano em que se comemora 230 anos da fundação da cidade, prestamos agradecimento e abraçamo-nos fraternalmente com povo Sueco pelo respeito e acolhimento de um filho Santanense como se fosse seu filho. Que Senhora Santana, Nossa Excelsa Padroeira, proteja nossos povos. Que assim seja! Amém!

Jo√£o Neto Felix Mendes/29.04.2017
 
 
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