Santana do Ipanema - segunda, 23 de outubro de 2017
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CrŰnicas
21/02/2017
SANTANA DOS VELHOS CARNAVAIS
Por Luiz Antonio de Farias, capi√°


QG da folia 1969 (Foto acervo Darrras Noya/João Neo Félix Mendes)
Nas minhas idas mensais ao meu velho e sofrido sert√£o ‚Äď pr√°tica que se repete desde julho de 1977, quando deixei meu torr√£o natal ‚Äď tenho como rotina uma passagem pela Fazenda Belo Horizonte, do meu amigo de inf√Ęncia e compadre Manoel Cirilo. L√° costumo encontrar velhos conhecidos que se re√ļnem aos domingos, para jogar futebol e, em seguida, participar de animadas rodadas de canastra, movidas a cervejas com churrasco ou talagadas da ‚Äú√°gua que passarinho n√£o bebe‚ÄĚ com tira gosto de umbu, caju, ou qualquer fruta de √©poca. Tudo isso adicionado a um bom papo, onde n√£o faltam as ‚Äúfofocas‚ÄĚ observadas na semana que findou.

Em recente conversa com o compadre ele deixou transparecer que, nada obstante ser Santana uma terra de escritores, pouco ou nada foi dito com relação aos carnavais passados. Fiz ver a ele que pelo menos Clerisvaldo Chagas, Djalma de Melo Carvalho e Remi Bastos devem ter abordado o assunto em alguns de seus escritos.

Independentemente de qualquer coisa que j√° foi relatada, vou me aventurar desenvolver algo sobre o assunto, mesmo correndo o risco de cometer injusti√ßas ‚Äď por conta da mem√≥ria j√° em decl√≠nio ‚Äď deixando de citar figuras folcl√≥ricas de nossos carnavais de passado long√≠nquo.

A lembran√ßa da minha mais tenra inf√Ęncia, no come√ßo da d√©cada de 50, remete √† figura de Coriolano Silv√©rio do Amaral, seu Carola, que no per√≠odo carnavalesco descia do pedestal de um conceituado farmac√™utico e das fun√ß√Ķes de delegado, para liderar o Bloco dos Brotinhos, que retratava um grupo de adultos travestidos de crian√ßas. Recordo-me, tamb√©m, dos ‚Äúcaretas‚ÄĚ, figuras mascaradas, munidas de relhos que provocavam assustadores estalos, que me faziam tremer de medo e s√≥ sa√≠a √† rua em companhia do av√ī Mizael Farias. √Ä tarde, ia para a Pra√ßa do Centen√°rio com Maria, 2¬™ esposa do meu av√ī, assistir aos espet√°culos proporcionados pelas orquestras bem ensaiadas, que levava o p√ļblico animado a ‚Äúfazer o passo‚ÄĚ, como se costumava dizer.

O ponto alto do festejo, na √©poca, consistia no desfile de carros aleg√≥ricos, genialmente constru√≠dos por um cidad√£o simples, de baixa estatura, chamado Agenor, funcion√°rio p√ļblico, salvo o engano. A mais grata recorda√ß√£o, que me vem √† mente, foi no ano em que o referido core√≥grafo usou a criatividade para confeccionar uma alegoria caracterizada em forma de elefante, que levou o p√ļblico ao del√≠rio, sobre o qual desfilou a jovem Elenice (hoje esposa de Paulo Ferreira) a menina-mo√ßa (adolescente) mais bonita daquele momento, cuja beleza loura fazia lembrar Ang√©lica, atual apresentadora da rede Globo de televis√£o.

Havia nesse tempo o famoso corso, que compreendia os desfiles de automóveis que percorriam toda cidade com voltas repetidas, todas as tardes do tríduo momesco. Os tempos modernos e os altos preços dos combustíveis concorreram, penso eu, para a cessação dessa folia.

O carnaval de rua sempre foi o ponto alto de nossos festejos. Existiram tradicionais blocos que ultrapassaram gera√ß√Ķes. Podemos citar ‚ÄúOs Cangaceiros‚ÄĚ; ‚ÄúO Bloco do Urso Preto‚ÄĚ (‚Äúmas como foi mas como √©, o Urso Preto veio na barca de No√©‚ÄĚ), organizado, a princ√≠pio, por seu Carola e, posteriormente, pelo foli√£o Chico Paz; ‚ÄúBloco das Quengas‚ÄĚ, formado pelas ‚Äúmeninas‚ÄĚ do aterro, liderado por Z√© Malta, um respeitado funcion√°rio dos correios; o bloco da Ema, de Albertino Firmo, por exemplo. N√£o se pode deixar de citar seu Nozinho Falc√£o, um dos foli√Ķes mais aut√™nticos, de ent√£o, que teve como seus seguidores os filhos Ialdo e Ivan e, posteriormente, o neto Reginaldo Falc√£o, este com suas fantasias reconhecidamente criativas e irreverentes. Vale a pena recordar, inclusive, o bloco de Z√© Sapo, com suas alegorias originais, gra√ßas √† criatividade do pr√≥prio autor.

Na d√©cada de 70 surgiram novas agremia√ß√Ķes tais como o Bloco da Mundi√ßa (Luiz Chaves, Josa Pinto, os irm√£os Z√© Abdon, Z√© Carlos e Z√© Ant√īnio, Osman Agra, Z√© Lemos, Waltinho, Jo√£o Neto de dona Dirce, Jo√£o Santana, Idelzu√≠to e Raimundo Melo, etc.); do Produban (Carvalho, Omir, Pinheiro, Z√© Vieira, Baixinho, etc.); o Bloco Vira Vira (Mileno, Ademir Aquino, Z√© Carlos, Vivi, Z√© Gentil, etc.); o Bloco Brasilgas (Z√© Pinto, Floriano, Guido, M√°rcia Telma, Elza Marques, M√°rcio Barros, etc.); o Bloco da Burrinha (Baixinho da padaria de Le√≥); do Pastoril (Erasmo, Z√© Ormindo, Noya, Sebo, M√°rio Jorge, C√©sar, Joninhas, etc.); o Furdun√ßo (Paulinho de Eug√™nio, Limerck, Newton, Jo√£o P√™nis, Jo√£o Alano, Leo, Anfr√≠zio, o mano Edgard, etc.) o Bloco do Sapo (Ademir, Aderval, Cao Silva, Paulo D√©cio, Z√© Ormindo, etc.) e o Bloco do Pau D¬īArco (Mindinho, Mard√īnio, Paulo Vent√£o, Terez√£o, Motorzinho, etc.) , este organizado por Remi Bastos ‚Äď o artista mais ecl√©tico de nossa terra ‚Äď em parceria com seu melhor amigo Benedito Cego. Surgiu at√© o Bloco do Capi√° (o pr√≥prio, Erasmo, Colorau e Noya) que, pela inexpressividade, morreu no nascedouro.

Para reavivar minha mem√≥ria recorri a v√°rias fontes no sentido de me ajudar a chegar o mais pr√≥ximo poss√≠vel da realidade dos blocos que fizeram a alegria de nossa terra. As informa√ß√Ķes de Z√© Reni, Ricardo Le√£o, Jo√£o Neto de dona Dirce e do mano Edgard foram fundamentais na garimpagem. Da√≠ fez ressurgir o bloco da C√Ęmara J√ļnior, do qual eu fazia parte. Os demais componentes eram M√°rio Beleza, Miguel Nobre, Manoel Constantino, Humberto Melo, S√≠lvio Bulh√Ķes, Alo√≠sio Ernande, Ugo Bossa Nova, Henaldo Bulh√Ķes, Jaciro, Luiz Chaves, Ricardo Le√£o e P√© de Pato. Foram lembrados tamb√©m o Bloco dos Peregrinos (Ricardo Le√£o, P√© de Pato, Geraldo de Ormindo Erasmo, Motorzinho, Reginaldo, etc.) que sa√≠a da AABB, na noite do s√°bado, percorria os poss√≠veis bares da cidade, at√© a hora do baile no T√™nis; e o Bloco do Pife (tinha os componentes efetivos: Z√© Reni, Ademir e Aderval Carvalho, Jo√£o Neto de dona Dirce, M√°rio Jorge, Cao Silva, e os aleat√≥rios: Sebo, Mansinho, Z√© Ormindo, Marcinho, etc.). A particularidade desse grupo era a s√°tira aos movimentos religiosos, que arrecadavam dinheiro, conduzindo um orat√≥rio com o santo da devo√ß√£o ‚Äď amparado por um guarda-chuva ‚Äď ao som de uma banda de p√≠fanos. S√≥ que no caso desse grupo a ‚Äúsanta‚ÄĚ colocada no orat√≥rio era a fotografia de uma mulher pelada, normalmente retirada da √ļltima edi√ß√£o da revista Playboy. Os instrumentos eram disponibilizados pelos m√ļsicos da Banda de P√≠fanos do Povoado Jorge. Segundo Z√© Reni, era muita coragem do pessoal que cedia, porque milagrosamente os aparelhos de som eram devolvidos na quarta-feira de cinzas devidamente intactos.

Com certeza existiram outras agremia√ß√Ķes, cuja falta de men√ß√£o resulta indubitavelmente pela falha da mem√≥ria.

O cen√°rio carnavalesco de nossa terra teve seu per√≠odo √°ureo com o advento das escolas de samba, um tipo de folguedo at√© ent√£o desconhecido em nossa terra. No final da d√©cada de 50, chegou por aqui, oriundo de Pesqueira, em Pernambuco, Jo√£zinho (de Z√© V8), craque de futebol, para se integrar √† gloriosa equipe do Ipanema Atl√©tico Clube, o melhor time do estado de Alagoas. Paralelamente √†s fun√ß√Ķes de atleta ele criou a Escola de Samba Unidos do Monumento. Com seu conhecimento da arte, com sua capacidade de lideran√ßa, e com o apoio de toda Fam√≠lia V8, tornou a escola uma agremia√ß√£o bem ensaiada, que brilhou n√£o s√≥ em Santana mas, tamb√©m, nas cidades circunvizinhas, inclusive do vizinho estado de Pernambuco, onde foram realizadas memor√°veis apresenta√ß√Ķes. A hegemonia do bloco perdurou por longos anos.

Por motivo de uma cis√£o, que n√£o me cabe explicar, aconteceu o surgimento da Escola de Samba Juventude no Ritmo. Esta nova agremia√ß√£o teve como comandante meu irm√£o Shyko, tamb√©m conhecido pela alcunha de Tamanquinho, que, aliou os conhecimentos adquiridos com o ‚Äúmestre‚ÄĚ Jo√£ozinho aos avan√ßos de sua pr√≥pria criatividade e fez nascer uma nova escola, com caracter√≠sticas modernas, somente compar√°vel ‚Äď guardadas as devidas propor√ß√Ķes ‚Äď √†s grandes escolas de samba do pa√≠s. Seus desfiles se notabilizaram pelas fantasias ricamente elaboradas, onde o ponto alto ficava por conta dos carros aleg√≥ricos, desenvolvidos gra√ßas ao poder de cria√ß√£o do Sr. Luiz Dantas, um renomado funcion√°rio p√ļblico estadual, mas que n√£o se furtava em dar sua inestim√°vel colabora√ß√£o, sem compensa√ß√£o financeira, fruto do seu alto esp√≠rito de altru√≠smo e de boa vontade. N√£o se pode deixar de enaltecer, inclusive, a prestimosa disponibilidade das costureiras e figurinistas, que n√£o poupavam esfor√ßos para proporcionar o brilhantismo dos desfiles. N√£o se pode deixar de reconhecer que a raz√£o das jornadas deslumbrantes foi devida √† uni√£o de uma capacitada equipe, administrada pelo empres√°rio Paulo Ferreira que, juntamente com a fam√≠lia Cirilo, tudo faziam para que fosse atingido o principal objetivo, que consistia em proporcionar a Santana um carnaval de qualidade, compat√≠vel com a grandiosidade do seu povo.

O aparecimento da Juventude No Ritmo desencadeou um clima de rivalidade perante à Unidos do Monumento. O antagonismo se estendeu, inclusive, para o campo esportivo, de vez que na sua grande maioria os torcedores da Unidos eram, concomitantemente, adeptos do Ipanema Atlético Clube e, da mesma forma, os simpatizantes da Juventude torciam pela Associação Atlética Ipiranga.

Nunca consegui entender se por falta de planejamento, ou como atitude proposital, os organizadores do carnaval n√£o estipulavam os roteiros a serem percorridos pelas referidas escolas, raz√£o porque muitas vezes haviam o encontro das duas agremia√ß√Ķes. Era um espet√°culo √† parte, porque os componentes de ambos os lados tinham como prop√≥sito desarticular os ritmos de cada bloco. Era um confronto que fazia a ‚Äúterra tremer‚ÄĚ, literalmente. Nunca havia a convic√ß√£o de quem teve melhor desempenho, porque cada grupo ‚Äúpuxava a brasa para sua sardinha‚ÄĚ. A contenda gerava disc√≥rdia nos dias que se seguiam logo ap√≥s o carnaval, fato que, com o passar do tempo voltava √† normalidade.

Muito falei sobre o carnaval de rua, entretanto n√£o se pode deixar de acrescentar as realiza√ß√Ķes dos bailes propiciados pelo T√™nis Clube, AABB e Sede dos Artistas, normalmente animados por orquestras locais ou de outras plagas, que finalizava a folia de cada noite. No encerramento definitivo dos festejos, ao raiar do sol da quarta-feira de cinzas, as orquestras percorriam as principais ruas da cidade, enquanto os foli√Ķes lamentavam o t√©rmino de mais um reinado do momo.

Tenho absoluta convic√ß√£o de que este trabalho n√£o esgota o assunto, que √© muito rico e contagiante, e outros escribas poder√£o retomar o tema e elaborar explana√ß√Ķes bem mais precisas do que estas, que tentei passar para aqueles que se aventurarem a proceder √† leitura, aos quais fico deveras agradecido.



Ireverêwncia do saudoso professor Reginaldo Falcão - Bloco a véia debaixo da cama (Foto:acervo Luiz Antonio de Farias, capiá)
 
 
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