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18/11/2010
A REVOLUÇÃO DOS BICHOS
 
* Rosa Cecília Wanderley Silva de Azevedo

Pelas ruas de minha querida Maceió comumente me deparo com situações que me trazem enorme tristeza. A quantidade de desabrigados que parecem ter sido abandonados, inclusive por si mesmos, tal é a degeneração física e psíquica que aparentam, é alarmante. Tais cenas urbanas me reportam ao filme Nosso Lar e me fazem pensar: o Umbral é aqui!

Quando estamos motorizados, tais cenas se reduzem às imagens que parecem projetadas nas janelas planas dos carros confortavelmente climatizados. Contudo, a pé o horror é tridimensional: tem cheiro forte além de grandes e sólidos obstáculos que se teimarmos em ignorá-los podem nos render, no mínimo, um tornozelo torcido...

Muitos de nós apenas passamos por tais situações, como espectadores de um filme. Porém há outros que não tem a opção de fechar os olhos, nem de sair de cena, por mais assustadores que o cenário e a trama se revelem. Esta parcela da população é composta não apenas de pessoas. Há outros seres, indefesos e verdadeiramente sem opção além de habitar as ruas de nossa capital. É deles que gostaria de tratar aqui.

Há aproximadamente noventa mil cães e gatos de rua em Maceió, dez por cento da população humana da cidade, segundo o site do NEAFA-Núcleo de Educação Ambiental Francisco de Assis. Vítimas do descaso, esses animais são condenados a serem vetores de doenças e alvos de maus tratos e até de torturas. Parece-me que as frustrações produzidas pelo estilo de vida competidor e excludente vigente em nossa sociedade vão sendo passadas e descontadas do mais forte ao mais fraco, dos poderosos aos hipossuficientes, numa cadeia que se esgota nos animais.

Os animais sofrem, mas não passam adiante os maus tratos, pois humilhar o próximo e machucar deliberadamente é inerente ao homem. Quem cria animais domésticos sabe que mesmo que se dê apenas aquilo que de outra forma iria para o lixo, como restos de comida, recebe-se em troca inabalável lealdade e genuíno respeito.

Os animais parecem ser guardiões de virtudes que há muito vem sendo colocadas em posições cada vez mais baixas na hierarquia de valores de nossa sociedade, que muito preza a competitividade, a esperteza e a ostentação. Esses bichos, portanto, por estarem na contramão da corrida que a maioria de nós tem empreendido pelo sucesso, acabam se tornando invisíveis aos nossos olhos.

O que deveríamos perceber é que esta nossa atitude muito diz a respeito de nós mesmos. Está diretamente ligada ao mau cheiro que exala de nossa cidade e que nos faz subir os vidros dos nossos carros. Há algo de podre no nosso modo de agir até agora.

Segundo Einstein, para termos algo que nunca tivemos ou para sermos de um modo que nunca fomos, temos que fazer algo que nunca fizemos, tentar algo que nunca tentamos. Subverter, portanto, a ordem na qual temos tentado encaixar o mundo seria uma possibilidade de transformarmos nossa realidade. Um primeiro passo simples, como deveriam ser todos os primeiros passos, seria tratarmos com respeito os animais que vivem nas ruas.

Atualmente os animais de rua que são recolhidos e levados à instituição pública competente, o Centro de Controle de Zoonoses, são frequentemente eutanasiados, mesmo que estejam em perfeita saúde. Por falta de estrutura para abrigar todos os animais, dentro de um prazo máximo de 72 horas, segundo informações do site do NEAFA, cães e gatos podem ser abatidos. Além de cruel, tal medida é anti-econômica visto que o custo de sacrificar um animal é de 131 reais, contra apenas 31 para esterilizar.

Li uma vez que o mal não existe, pois seria apenas o bem em formação. Segundo essa lógica, não devemos buscar corrigir o mal, mas apenas aumentar o bem. Dessa forma, ele acabará por absorver todo o mal ao seu redor.

Então, sendo os animais talvez os únicos seres que não propagam o mal que é a eles infligido, que continuam apenas a devolver amizade, respeito, lealdade, afeto ao mundo, mesmo se não foi isso que receberam, a introdução deles em ambientes onde tais virtudes estão em falta produziria grandiosa transformação.

Penitenciárias e orfanatos são alguns desses ambientes. Sabemos que, teoricamente, as penas, para o direito brasileiro, tem finalidade sócio-educativa. Os presos são chamados de reeducandos, pois estão ali para serem corrigidos e preparados para serem reintegrados ao convívio social. Na prática, porém, grande parte dos presos acaba reincidindo em crimes cada vez mais graves. Pois nossas penitenciárias são ambientes onde para sobreviver é preciso se tornar cada vez menos humano. Mesmo se saem da prisão e tentam sinceramente viver de forma honesta é muito difícil que consigam pois dificilmente encontrarão quem queira dar-lhes uma oportunidade de emprego, por exemplo. Afinal, há o preconceito por parte de todos nós que, não sem razão, tememos egressos das “escolas do crime” em que se tornaram os presídios brasileiros.

Orfanatos são lugares onde vivem crianças cujas famílias de origem não tem condições materiais e/ou psicológicas de cuidar delas. Muitas dessas crianças nunca serão adotadas, nunca terão um lar e provavelmente nunca receberão afeto profundo e sincero. A falta de afeto condena seus destinos a vícios, ao crime e ao aumento da degeneração de nossa sociedade.

Cães e gatos de rua podem e devem ser integrados à sociedade e certamente tem potencial para ajudar a integrar aqueles de nós que até agora ficaram à margem. A medicina e a psicologia já contam com eles para ajudar pessoas com variados problemas de saúde física, mental e espiritual. São numerosas as terapias que usam a convivência com gatos e cachorros e obtêm enorme êxito.

Devidamente esterilizados e vacinados, gatos e cachorros, se introduzidos em presídios, orfanatos e escolas para serem cuidados pelos presos e pelas crianças serão agentes de uma verdadeira revolução pelo afeto. Ganharão os animais, no mínimo, comida e abrigo. Ganharão os presos e as crianças: companhia, afeto, o sentimento de ser útil cuidando de alguém sem medo de rejeição ou preconceito. A violência e a reincidência no crime com certeza diminuirão. E toda a sociedade ganhará com a transformação de seus membros em seres mais respeitosos e dignos.

*Jornalista com MS e acadêmica de Direito

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