Santana do Ipanema - terÁa, 21 de novembro de 2017
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José de Melo Carvalho
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06/06/2015
CAÇADA, BADERNA E DELEGACIA
 
CAÇADA, BADERNA E DELEGACIA

José de Melo Carvalho

Santana do Ipanema vivia a movimentada década de 1960.
As frequentes caçadas eram um dos esportes preferidos da nossa turma e de outras mais da cidade, bem assim o bate-bola, a pescaria no rio Ipanema e no Açude do Bode. Não esqueçamos, porém, as brincadeiras de finca pião, do ouro em busca, das bandeiras, do garrafão, etc., divertimento próprio dos adolescentes de nossa época. As caçadas, embora perigosas, ocorriam geralmente aos domingos e feriados, tendo os sítios e fazendas de parentes e de amigos como locais preferidos para a audaciosa molecada.
Como o danoso processo de desmatamento ainda não havia começado, as propriedades então existentes no município e em torno da cidade possuíam áreas e mais áreas de matas virgens, repletas de frondosas árvores. Uma beleza! Era ali o habitat da passarada e de animais silvestres, por nós escolhidos para alvo dos certeiros tiros das espingardas soca-tempero.
Na cidade, todo menino de nossa √©poca possu√≠a a sua espingarda soca-tempero, que era guardada com muito zelo e cuidados especiais. O bisaco (embornal ou mochila) era complemento indispens√°vel √†s ca√ßadas. Tinha ele duas divis√Ķes, uma para guardar o chumbeiro, a caba√ßa de p√≥lvora, a caixa de espoletas e as buchas de corda ou caro√°, e a outra era destinada √†s ca√ßas abatidas.
Num domingo, que prometia belo e ensolarado, sa√≠mos logo de madrugada em dire√ß√£o ao A√ßude do Bode, distante de Santana aproximadamente uns tr√™s quil√īmetros. Eu, Arquimedes (Lob√£o), Edinaldo (Lobinho), Luiz Ceg√£o e Z√© Wilson (Raposo), espingardas a tiracolo, bisacos √†s costas, cantis com √°gua, p√£o com manteiga e algumas frutas para o lanche, partimos para mais uma aventura.
Era muito cedo mesmo. Os raios do sol amea√ßavam aparecer. Morcegos ainda voavam e as corujas piavam. Z√©rurbano seguia para o seu s√≠tio. Perguntamos-lhe por Jo√£o Neto (Capela), seu filho, e ele de imediato respondeu-nos: ‚ÄúDorme quem nem um barr√£o.‚ÄĚ Ap√≥s a consulta e a resposta, seguimos viagem, caindo em campo. Tiros para l√°, tiros para c√°, a ca√ßada havia come√ßado. Uma espingarda, de repente, entupiu. Fomos obrigados a socorrer o companheiro, providenciando fogo para desobstruir o cano da arma. Chovia um pouco, que prejudicava nossa a√ß√£o, mas conseguimos, mesmo assim, solucionar o problema.
√Ä tarde, a cambada estava satisfeita com o resultado da ca√ßada: muitas rolinhas, bem-te-vis, papa-lagartas, sabi√°s, um nambu, alguns pre√°s e um tei√ļ. Lobinho tinha matado mais rolinhas do que os outros, uma vez que sua espingarda era especial, porque seu pai, Ant√īnio D‚Äôarca, conhecedor do ramo, aprontara-a no DNER, local do seu trabalho.
Da√≠, algu√©m sugeriu: ‚ÄúPronto, vamos fazer o lanche debaixo do imbuzeiro e cair fora.‚ÄĚ
Quando retornávamos para casa, fizemos uma pequena parada no Mandacaru Bar, também reduto de mariposas para diversão de adultos. Bar e simulado pequeno bordel, melhor dizendo. Nossa turma tinha, em média, dezesseis anos de idade, e o ambiente era contraindicado para menores de idade, pois sabíamos que o juiz de menores, Seu Aloísio, era rigoroso nesse particular.
Cientes dos rigores da lei, eu, Neto (Jo√£o do Mato) e Luiz Ceg√£o tiramos o time de campo. Entretanto, Raposo, Lob√£o e Lobinho, moleques baderneiros, l√° ficaram a infernizar as garotas, que nada queriam com eles, ainda que talentosos jovens, mas sem dinheiro. Logo se trancaram nos quartos. Raposo, enfezado, ati√ßado por Lob√£o, apontou a espingarda e disparou um tiro na porta do quarto de uma delas. N√£o satisfeitos, chegaram a queimar as cal√ßolas penduradas em arame no quintal do bordel, dando gritos como se fossem guerreiros fulni√īs de √Āguas Belas.
Era sabido que o Mandacaru Bar ficava no terreno de Dr. Aderval Tenorio. Quem tomava conta do bar ou pagava aluguel dele era Luiz, pessoa muito conhecida na cidade e que morava na beira do Panema, bem perto dali.
Depois das molecagens praticadas, os tr√™s baderneiros resolveram ir embora. N√£o sabiam eles que as meninas, logo depois desceriam at√© a delegacia de pol√≠cia para a devida queixa, exigindo dos respons√°veis indeniza√ß√Ķes pelas calcinhas queimadas, entre outras coisas. O delegado prometeu resolver a quest√£o no dia seguinte, porque sua viatura estava em oficina para conserto.
No dia seguinte, logo cedo, Lob√£o viajou para Garanhuns, onde estudava. Os pais dos meninos foram levados √† delegacia, onde tomaram conhecimento dos fatos ocorridos e dos valores das indeniza√ß√Ķes exigidas. Seu Arquimedes, Seu Ant√īnio D‚Äôarca e Seu Wilson Modesto cruzaram a cidade no ve√≠culo da delegacia e foram at√© o local para verificar in loco os estragos deixados pelos seus filhos. Tiveram que pagar a conta.
Finalmente, n√£o soube quantas surras foram registradas depois do ocorrido. Lob√£o s√≥ levou a dele quando retornou de Garanhuns, sexta-feira, √† noite, no √īnibus da empresa Progresso.

Maceió, maio de 2015.


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