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José de Melo Carvalho
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06/06/2015
CAÇADA, BADERNA E DELEGACIA
 
CAÇADA, BADERNA E DELEGACIA

José de Melo Carvalho

Santana do Ipanema vivia a movimentada década de 1960.
As frequentes caçadas eram um dos esportes preferidos da nossa turma e de outras mais da cidade, bem assim o bate-bola, a pescaria no rio Ipanema e no Açude do Bode. Não esqueçamos, porém, as brincadeiras de finca pião, do ouro em busca, das bandeiras, do garrafão, etc., divertimento próprio dos adolescentes de nossa época. As caçadas, embora perigosas, ocorriam geralmente aos domingos e feriados, tendo os sítios e fazendas de parentes e de amigos como locais preferidos para a audaciosa molecada.
Como o danoso processo de desmatamento ainda não havia começado, as propriedades então existentes no município e em torno da cidade possuíam áreas e mais áreas de matas virgens, repletas de frondosas árvores. Uma beleza! Era ali o habitat da passarada e de animais silvestres, por nós escolhidos para alvo dos certeiros tiros das espingardas soca-tempero.
Na cidade, todo menino de nossa época possuía a sua espingarda soca-tempero, que era guardada com muito zelo e cuidados especiais. O bisaco (embornal ou mochila) era complemento indispensável às caçadas. Tinha ele duas divisões, uma para guardar o chumbeiro, a cabaça de pólvora, a caixa de espoletas e as buchas de corda ou caroá, e a outra era destinada às caças abatidas.
Num domingo, que prometia belo e ensolarado, saímos logo de madrugada em direção ao Açude do Bode, distante de Santana aproximadamente uns três quilômetros. Eu, Arquimedes (Lobão), Edinaldo (Lobinho), Luiz Cegão e Zé Wilson (Raposo), espingardas a tiracolo, bisacos às costas, cantis com água, pão com manteiga e algumas frutas para o lanche, partimos para mais uma aventura.
Era muito cedo mesmo. Os raios do sol ameaçavam aparecer. Morcegos ainda voavam e as corujas piavam. Zérurbano seguia para o seu sítio. Perguntamos-lhe por João Neto (Capela), seu filho, e ele de imediato respondeu-nos: “Dorme quem nem um barrão.” Após a consulta e a resposta, seguimos viagem, caindo em campo. Tiros para lá, tiros para cá, a caçada havia começado. Uma espingarda, de repente, entupiu. Fomos obrigados a socorrer o companheiro, providenciando fogo para desobstruir o cano da arma. Chovia um pouco, que prejudicava nossa ação, mas conseguimos, mesmo assim, solucionar o problema.
À tarde, a cambada estava satisfeita com o resultado da caçada: muitas rolinhas, bem-te-vis, papa-lagartas, sabiás, um nambu, alguns preás e um teiú. Lobinho tinha matado mais rolinhas do que os outros, uma vez que sua espingarda era especial, porque seu pai, Antônio D’arca, conhecedor do ramo, aprontara-a no DNER, local do seu trabalho.
Daí, alguém sugeriu: “Pronto, vamos fazer o lanche debaixo do imbuzeiro e cair fora.”
Quando retornávamos para casa, fizemos uma pequena parada no Mandacaru Bar, também reduto de mariposas para diversão de adultos. Bar e simulado pequeno bordel, melhor dizendo. Nossa turma tinha, em média, dezesseis anos de idade, e o ambiente era contraindicado para menores de idade, pois sabíamos que o juiz de menores, Seu Aloísio, era rigoroso nesse particular.
Cientes dos rigores da lei, eu, Neto (João do Mato) e Luiz Cegão tiramos o time de campo. Entretanto, Raposo, Lobão e Lobinho, moleques baderneiros, lá ficaram a infernizar as garotas, que nada queriam com eles, ainda que talentosos jovens, mas sem dinheiro. Logo se trancaram nos quartos. Raposo, enfezado, atiçado por Lobão, apontou a espingarda e disparou um tiro na porta do quarto de uma delas. Não satisfeitos, chegaram a queimar as calçolas penduradas em arame no quintal do bordel, dando gritos como se fossem guerreiros fulniôs de Águas Belas.
Era sabido que o Mandacaru Bar ficava no terreno de Dr. Aderval Tenorio. Quem tomava conta do bar ou pagava aluguel dele era Luiz, pessoa muito conhecida na cidade e que morava na beira do Panema, bem perto dali.
Depois das molecagens praticadas, os três baderneiros resolveram ir embora. Não sabiam eles que as meninas, logo depois desceriam até a delegacia de polícia para a devida queixa, exigindo dos responsáveis indenizações pelas calcinhas queimadas, entre outras coisas. O delegado prometeu resolver a questão no dia seguinte, porque sua viatura estava em oficina para conserto.
No dia seguinte, logo cedo, Lobão viajou para Garanhuns, onde estudava. Os pais dos meninos foram levados à delegacia, onde tomaram conhecimento dos fatos ocorridos e dos valores das indenizações exigidas. Seu Arquimedes, Seu Antônio D’arca e Seu Wilson Modesto cruzaram a cidade no veículo da delegacia e foram até o local para verificar in loco os estragos deixados pelos seus filhos. Tiveram que pagar a conta.
Finalmente, não soube quantas surras foram registradas depois do ocorrido. Lobão só levou a dele quando retornou de Garanhuns, sexta-feira, à noite, no ônibus da empresa Progresso.

Maceió, maio de 2015.


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