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Carlindo de Lira
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04/06/2009
CAMINHOS E DESCAMINHOS NA POLÍTICA INTERNA DO PT EM ALAGOAS
 
Caminhos e descaminhos na política interna do PT em Alagoas
*Carlindo de Lira Pereira

O partido dos trabalhadores, em Alagoas, apresenta uma história de luta social marcante na terra dos marechais, a partir da década de oitenta. Onde arrasta para Alagoas, já no ano seguinte ao da sua fundação, os valo- res ideológicos da democracia popular estreitando o contato com as catego- rias trabalhadoras sindicalizadas, por meio de um diálogo produtivo com suas lideranças.
Em virtude da crescente industrializa√ß√£o da capital, Macei√≥, surge a√≠, as condi√ß√Ķes hist√≥ricas, isto √©, o modelo capitalista de produ√ß√£o melhor instalado que no resto do estado, pois a centraliza√ß√£o em Macei√≥ dos ser- vidores p√ļblicos das esferas federais, estaduais e municipais, com sindica- tos atuando na clandestinidade, ou em processo de instala√ß√£o, no final da d√©cada de 1970 e, ainda, na d√©cada de 1980 a chegada de ind√ļstrias como a Salgema e a Brasken, al√©m de filiais de lojas importantes do setor terci√°- rio , enquanto nos demais munic√≠pios, 101 portanto, o modelo de produ√ß√£o rural, √† moda da era colonialista, com a concentra√ß√£o de grandes proprie- dades rurais dominadas por alguns feudos familiares do interior alago-ano, apresentavam um cen√°rio econ√īmico, inteiramente , diverso daquela estrutura, ou em via de estrutura√ß√£o na capital do estado. Segundo Carva- lho (2005, p. 29):
Maceió é o retrato fiel do modelo concentrador de renda que
o Brasil conhece desde o tempo colonial, e que mantém os seus
traços mais fortes no Nordeste. A concentração de terra e de
renda tem a correspondência espacial. A capital tem, em primei-
ro lugar , o privilégio de, desde o século XIX, concentrar toda a
administração federal e estadual, além da sua própria Prefeitura.
S√£o mais de 80 mil funcion√°rios p√ļblicos vivendo na capital.
Uma entre cada tr√™s fam√≠lias na capital tem um servidor p√ļblico.


Em vista disso, os demais munic√≠pios alagoanos, mesmo a segunda maior cidade do interior, Arapiraca, apesar de ter lan√ßado oficialmente a funda√ß√£o do Partido dos Trabalhadores no ano seguinte ao da funda√ß√£o do PT nacional, n√£o encontrou as condi√ß√Ķes hist√≥ricas produzidas pelo capital e sua divis√£o de classes e categorias organizadas sindicalmente para insta- lar na sociedade arapiraquense a discuss√£o pautada na organiza√ß√£o sindical nos moldes ‚Äúda enorme onda de lutas sociais ocorrida no final dos anos 1970 e parte dos anos 1980‚ÄĚ (RESOLU√á√ēES, 10¬ļ CONFER√äNCIA AE, 2008) das centrais sindicais das metr√≥poles paulistana, carioca, mineira e ga√ļcha. Conforme Carvalho (2005, p.16):
Diferentemente de outros estados brasileiros mais desenvolvidos,
em Alagoas, a ausência de um forte processo industrial, a inexis-
t√™ncia de um setor comercial e de servi√ßos din√Ęmicos, assim como
a fragilidade da m√°quina p√ļblica ‚Äď pequena para as necessidades
regionais e mal pagadora ‚Äď inviabilizaram o surgimento tanto de
uma classe operária expressiva como de uma classe média numeri-
mente representativa.

Em Macei√≥, a intensa atividade sindical sustentada pelo discurso da luta de classes conseguiu mobilizar e conscientizar a maioria dos trabalha- dores para a sindicaliza√ß√£o de sua for√ßa de trabalho e de sua condi√ß√£o de sujeito hist√≥rico na sua rela√ß√£o de trabalho com seu patr√£o, seja ele o esta-do, ou os grupos empresariais. Esta organiza√ß√£o criou as condi√ß√Ķes para a elegibilidade de candidatos representantes da categoria trabalhadora sindi-calizada.
A força política sindical dos trabalhadores alagoanos da capital do estado levou ao poder legislativo municipal, pela primeira vez na terra dos marechais e coronéis, o discurso dos trabalhadores; o ponto de vista das ca- tegorias trabalhistas, que ao longo dos 180 anos de história da alagoanidade não tiveram representação legislativa nem legitimidade reconhecida. Poste- riormente, essa mesma organização sindical, construiu poder político sufi- ciente para conduzir ao poder legislativo estadual, antes prerrogativa dos filhos dos marechais e coronéis, dois representantes da classe trabalhadora sindicalizada, feito nunca antes visto na política de cartas marcadas de Ala-goas.
Enquanto isso, no interior do estado o Partido dos Trabalhadores n√£o consegue emplacar seu discurso de classes e sindicalismo. Os demais muni- c√≠pios com caracter√≠sticas de produ√ß√£o especificamente rural, agropecu√°ria, concentrada nas m√£os de poucos latifundi√°rios, herdeiros de uma cultura pol√≠tica coronelista e acentuadamente violenta , sem qualquer organiza√ß√£o sindical √† vista, com alt√≠ssimo √≠ndice de sua popula√ß√£o analfabeta e marca- da pela despolitiza√ß√£o, reconhecidamente analfabetos pol√≠ticos, tamb√©m. A aus√™ncia de condi√ß√Ķes hist√≥ricas, que s√≥ o processo de industrializa√ß√£o capitalista proporciona, por tornar mais evidente a rela√ß√£o do proletariado e sua conseq√ľente organiza√ß√£o sindical, a onda de lutas sociais passa longe dos 101 munic√≠pios alagoanos, que desconhece e at√© estranha esse discurso petista.
Em Arapiraca, segunda maior cidade do estado, porém, marcadamen- te, construída com a mão-de-obra dos trabalhadores do campo, tendo sua economia fundada e mantida nas décadas de 1970 e 1980 na produção fu- mageira sem qualquer organização sindical dos trabalhadores, ao contrário o que existia era o sindicato patronal; por conta disso, Arapiraca não vive, não registra nenhuma experiência de organização trabalhista. Pois, o que ocorre em Arapiraca é algo inusitado, segundo o historiador Zezito Guedes (1999, p. 288 ):
Como ocorreu ao ciclo do ouro em Minas, ao ciclo do cacau
na Bahia, ao ciclo da borracha no Par√°, na fase √°urea da cul-
tura do fumo, houve oportunidade para todos, indistintamen-
te, tendo em vista a bem distribuída renda per capta, propor-
cionada pelo sistema minifundi√°rio implantado na regi√£o fu-
mageira, efetuaram verdadeira reforma agr√°ria natural.


Realmente, o modelo de organiza√ß√£o econ√īmica de Arapiraca pare- ce ter inviabilizado politicamente, a onda de lutas sociais ocorrida no final dos anos 1970 e parte dos anos 1980. Qualquer pesquisador pode levantar os fatos, que ir√° surpreender-se com a reforma agr√°ria natural ocorrida em Arapiraca na d√©cada de 70 e meados da d√©cada de 80. Ou seja, a onda de lutas sociais e seu conseq√ľente discurso pol√≠tico passou longe dessa cidade p√≥lo.
Em vista disso, o modus operandi da pol√≠tica partid√°ria arapiraquense esteve polarizada entre dois grupos, a saber, os que defendiam o projeto po- l√≠tico conservador e reacion√°rio da ARENA , e o projeto pol√≠tico redemo- cratizante e progressista do MDB. Ambos de car√°ter explicitamente neoli-beral e essencialmente capitalista. A discuss√£o sobre uma vertente pol√≠tica democr√°tica popular, ou de projeto socialista, e, ou comunista deu-se por parte de pequenos grupos estudantis e universit√°rios, mas, isolados discur- sivamente e sem penetra√ß√£o social. √Č neste contexto que surgem o PT, o PC doB, o PSB, etc.
At√© a presente data, o PT que j√° lan√ßou candidatura a Prefeito em Arapiraca e v√°rias a vereador, jamais conseguiu eleger um de seus candi- datos, n√£o √© por acaso. Alguns argumentam que se trata de desorganiza√ß√£o interna do partido na ‚Äúcapital do fumo‚ÄĚ. Mas, entendo e percebo algo maior que est√° al√©m do poder e da possibilidade de organiza√ß√£o local, trata-se do modus vivend do povo arapiraquense, da cultura pol√≠tica pautada num mo- dus operandi espec√≠fico de um modelo socioecon√īmico, que demanda outro jeito de fazer pol√≠tica, que n√£o √© receptivo ao discurso petista, pois este sur-ge exatamente como produto da enorme onda de lutas sociais dos anos 70 e meados dos anos 80, enquanto Arapiraca vivia seu per√≠odo √°ureo de desen- volvimento econ√īmico-fumageiro, onde eclodiu uma reforma agr√°ria natu- ral, com a consequente distribui√ß√£o de renda e o surgimento de minif√ļn- dios.
Hoje, Arapiraca não é mais um pólo fumageiro, porém seus líderes já nos anos de 1970, talvez, por pura intuição, semearam outra semente nessa terra. A iniciativa privada, e não poderia ser diferente, fundou uma institui- cão de nível superior na região do agreste, a FUNEC, que em seu estatuto já preconizava, justificando sua criação ao MEC, estar localizada numa região geopolítica-educacional estratégica para atender a demanda popula- cional agrestina e, por extensão sertaneja. Esta cidade é atualmente sede da Universidade Estadual de Alagoas, sendo a primeira instituição de nível su- perior no Estado de Alagoas que implantou a interiorização desse tipo de ensino, tendo mais quatro campi distribuídos no interior do estado.
Se estamos vivendo em plena era da informa√ß√£o e do conhecimento, percebo que somente por meio de um intenso trabalho de base e de forma- c√£o pol√≠tica, que j√° vem sendo desenvolvido pela tend√™ncia interna do PT Articula√ß√£o de Esquerda, em √Ęmbito nacional, podemos atingir a m√©dio e a longo prazo, o novo cidad√£o do interior alagoano, que √© fruto da semente da educa√ß√£o plantada na d√©cada de 70, em todos os seus n√≠veis, e que agora pode informar-se melhor e conhecer a diferen√ßa entre o joio e o trigo nessa nova etapa do projeto pol√≠tico petista para o novo mil√™nio.

*√Č professor auxiliar da Uneal e s√≥cio efetivo da ACALA.


Referências bibliográficas
Carvalho, Cícero Péricles de. Economia popular: uma via de modernização para Alagoas. Cícero Péricles de Carvalho - Maceió: EDUFAL, 2005.
Resolu√ß√Ķes da d√©cima confer√™ncia Nacional da Articula√ß√£o de Esquerda. S√£o Paulo- SP: Editora P√°gina 13. 2008.
Guedes Zezito. Arapiraca atrav√©s do tempo ‚Äď Jos√© Gomes Pereira.Macei√≥. Gr√°fica Mastergraphy Ltda. 199









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